NY Times: Smellbound

novembro 19, 2006 at 6:33 pm (matutando)

Na Magazine do New York Times de hoje veio um artigo de Chandler Burr detalhando como o perfumista Christophe Laudamiel criou as fragrâncias para Le Parfum Coffret de Thierry Mugler, uma coleção de odores sendo lançada juntamente à adaptação para cinema do romance Das Parfum de Patrick Süskind.

Le Parfum Coffret, de Thierry Mugler US$700 por 120ml de composições olfatórias. Cada fragrância representa uma cena do livro, e nem todas são agradáveis. O que esperar de Paris 1738 ou Human Existence? (Uma descrição de cada um dos perfumes se encontra no Bois de Jasmin.)

A garrafinha maior é Aura, a única fragrância da coleção que poderá ser comprada individualmente. A proposta de Aura é realçar e intensificar outros perfumes, quaisquer sejam suas famílias… “Comme une seconde peau atmosphérique, un sublimateur personnel.”

Um trecho de Smellbound, por Chandler Burr:

What if you could create a perfume that would enhance your own unique smell, a perfume that would smell different on you than on anyone else? In other words, your scent identity.

Laudamiel was at once excited and dubious. Technically it was daunting. And they didn’t have much time; Constantin was shooting the movie quickly; they were hurrying to make the premier. He flew back to his lab in New York and started working on this perfume, which they eventually decided to call Aura. It would have to interact with skin. No head, no heart, no base. Perfectly dosed so that before you put it on, it essentially smelled like nothing.

Chandler Burr escreve regularmente sobre perfumes no NY Times. Em Color Coded, ele explica como e porque perfumes são particularmente atraentes para certos grupos étnicos e geográficos (Ck One de Calvin Klein é um sucesso nos EUA mas não na Europa; Shalimar de Guerlain agrada os franceses; Flower de Kenzo é extremamente popular no Brasil e na China). Em Sniffing Danger, Burr fala da mesmice dos perfumes masculinos e sugere três que fogem do cliché. Em Synthetic No. 5, ele decodifica os ingredientes de alguns perfumes famosos.

Burr também esteve na New Yorker de 14 de março, então detalhando o processo criativo do perfumista Jean-Claude Ellena (leia-se First, para Van Cleef & Arpels) ao criar uma nova fragrância para a Hermès. O artigo é fascinante: The Scent of the Nile.

Para quem curte perfumes outro artigo interessante é Perfume and Politics por Hippolyta, desta vez falando do perfumista François Coty, publicado também pela New Yorker numa edição de 1930.

Racial female taste furnishes quaint statistics; for instance, American women like middling-passionate fantasy odors and no posy smells, whereas the chillier, land-loving British dames require only the chastest invented odors and pure garden bouquets. Blunt amber and heliotrope, most passionate of beast and blossom odors, intoxicate all the Spanish-speaking señoritas. Amber and rose in their rarest forms, considered by perfumers to be the peak of their art, please the French.

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Hamburger de trás prá frente

novembro 14, 2006 at 7:13 pm (matutando, misturando, sorrindo, verdejando)

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Borat Sagdiyev

novembro 13, 2006 at 11:51 pm (matutando, sorrindo)

BoratBorat vem desfilar suas graças de maillot. Para quem não conhece, Borat Sagdiyev é uma das personagens do comediante inglês Sacha Baron Cohen (Da Ali G Show). Borat viaja pelos EUA como jornalista e embaixador cultural do Cazaquistão, em algumas instâncias abusando da proverbial inocência do povo americano ou testando até onde vai sua compostura, em outras os convindando para que se enforquem com a própria língua. Nesta versão transatlântica de Pride & Prejudice, quem decide para que lado o mingau vai entornar é a própria vítima.

Há pouco estreou nos cinemas Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan. No meu entender, trata-se de um documentário. É um pacote de piadas grotescas mas bem colocadas, e a estréia nas telas de uma galinha que merece o oscar de atriz coadjuvante.

E como esta crítica por Anthony Lane na New Yorker lembra, o comediante Borat tem um propósito em todo o seu mau gosto e comentários politicamente incorretos:

When Borat laughs at the notion that you can be against cruelty to animals, you can hear, at his back, the snicker of Baron Cohen as he takes his cleaver to another sacred cow. His task is not so much to insult his fellow Jews, or the African-American community, as to register amazement at a culture that turns race relations into an article of faith—that seems to believe, against the run of history, in legislating our lower, more brutish instincts out of existence.

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County Fair, por Earth Oliver

agosto 1, 2006 at 9:49 pm (matutando, passeando, sorrindo, viajando)

My name is Earth and I travel around Oregon and photograph the most interesting characters I find at county fairs and rodeos. (Via BoingBoing)

Eu mudaria o nome para “Country Fairies”, mas as fotos de Earth Oliver são realmente muito bacanas. Tem Dorothy, Rapunzel e Príncipe Valente, o Último Samurai e a Coelhinha da Páscoa (em julho). Mozart, Barbara La Marr, Audrey Hepburn, Bo Derek, Twiggy, Britney Spears, Brooke Shields, Elton John, Farrah Fawcett e Casal 20. E a garota propaganda da BomBril (meu marido discorda, diz ele que ela parece mais com a noiva do Frankenstein).

Umas assustam mais que outras, mas algumas realmente dão medo.

Brincadeiras à parte, eu gosto de observar como o estado-unidense se traja e penteia. No Brasil o povo se veste inspirado pelas novelas e é escravo das novidades, nos EUA as pessoas aderem mais aos seus ídolos culturais ou suas tribos ideológicas, independente da época.

Homens e mulheres dedicam diariamente um bocado de tempo às suas madeixas. Vejo isso nos ônibus e supermercados, penteados presos bastante elaborados, ou cabelos soltos mas controlados com muito gel e spray fixador, os homens inclusive. Pode passar uma ventania sem que um fio saia do lugar. Onde trabalho tem um senhor que, quando vem de bicicleta, traz o secador de cabelos na mochila para ajeitar o penteado antes de pegar no batente.

As elites se elaboram ao inverso. Especialmente na geração X (nascida entre meados dos anos 60 e 70, com aspirações de sair do carrossel de status, dinheiro e ascenção social), prevalece a tentativa de mostrar que não se vestiu para a ocasião, e um bocado de esforço é colocado em construir uma figura de quem acabou de sair da cama com as roupas amarrotadas e cabelos despenteados (com cortes específicos e produtos para que o cabelo permaneça assim).

Na classe média brasileira, quando muito conseguimos identificar os roqueiros, naturebas, intelectuais, esportivos, sofisticados urbanos ou patricinhas e mauricinhos. A classe média estado-unidense se veste como democrata ou republicana, adepta de um esporte específico, praticante de uma profissão, e é extremamente cuidadosa em não pisar fora dos seus limites (ao mesmo tempo que rejeita a idéia de que haja um sistema de classes nos EUA). Enquanto que no Brasil as pessoas se arrumam para ir à igreja, ao teatro ou a um casamento, as diferenças se limitando à qualidade das roupas e saúde dos cabelos, nos EUA as pessoas que freqüentam tais lugares estão vestidas como estudantes, professores, advogados, secretários ou vendedores. No outro extremo tem aqueles que se fantasiam especificamente para o evento — se é um show de tango, uma boa parte da platéia feminina estará com saias de babados e enormes flores no cabelo; se o batuque é africano a audiência virá com túnicas e adereços pretensamente tribais; num evento de gala na Flórida muitos paletós ou gravatas terão coqueiros estampados.

É um paradoxo que um povo geralmente tão tímido, que evita fazer contato visual e que se ofende ao se descobrir observado, se vista de forma tão expressiva e freqüentemente chamativa. Talvez seja o mito de esta ser uma sociedade igualitária que alimente o desejo por notoriedade. Afinal de contas, é para olhar ou não?

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Pós-guerra na Europa, o Terror francês… e Leonardo

julho 27, 2006 at 10:22 pm (abstraindo, matutando)

Alguns comentários sobre livros são tão bem feitos que, além de despertar a vontade de ler os livros propriamente, já se aprende um bocado somente lendo a crítica.

Procurando informações sobre “Postwar”, de Tony Judt, descobri o comentário de Anthony Gottlieb no New York Times de 16 de outubro de 2005. “Postwar”, uma descrição detalhada da recuperação da Europa depois da Segunda Guerra, é tido pelo NY Times como um dos melhores livros de 2005. [Abaixo Der Hirte por Georg Baselitz (1966). O quadro faz parte de uma série chamada “Heróis” ou “Os novos tipos”. Segundo o texto do catálogo de um leilão da Christie’s em 2001, é o retrato de um homem aos andrajos e cheio de dúvidas num terreno devastado (em contraste à natureza sublime da tradição romântica alemã), provavelmente um soldado derrotado voltando para casa.]

Der Hirte, por George Baselitz (1966)One of the pleasures of this rich and immensely detailed book is its portrayal of Europe’s recovery from the devastation of 1945 as an organic regrowth. What seemed back then to be the twitching limbs of the dying was in fact the stirring of new life.

As Judt movingly draws it, the picture of Europe at the end of World War II is pitiful almost beyond bearing. Some 36.5 million Europeans are reckoned to have died between 1939 and 1945 because of the war. Tens of millions more were uprooted by Hitler and Stalin. In the immediate aftermath of Germany’s defeat, the continent was scarred with violent retribution, purges and outbreaks of what in some places — like Greece and Yugoslavia — amounted to civil war. As Judt notes, the war in Europe did not really end in 1945 at all. Neither did the persecution of Jews end with the closing of the death camps: well over a thousand Jews were killed in Polish pogroms after the liberation of Poland.

É horrível, mas faz sentido. A Polônia talvez tenha sido o país mais cruelmente devastado durante a guerra, e quando existe confusão não é raro a corda arrebentar do lado mais fraco, neste caso os judeus que sobreviveram ao holocausto e que tentaram voltar para casa. A respeito disso, outro livro interessante acaba de ser lançado e comentado na Magazine do NY Times deste último domingo: “Fear: Anti-Semitism in Poland After Auschwitz. An Essay in Historical Interpretation”, por Jan T. Gross. O primeiro capítulo do livro pode ser lido aqui.

Voltando ao comentário de Gottlieb sobre “Postwar”, de Tony Judt:

Man in a Cap, por Francis Bacon (~1943)Continuing anti-Semitism in Europe, and the fact that Germany was not always the source of it, is a topic to which the author returns often. While Germany quite rightly bore the brunt of the blame for Europe’s tragedy, other villains slipped away unnoticed. It was Austria, after all, that gave the world “Waldheimer’s disease” — the inability to remember what you did during the war, named for Kurt Waldheim, a secretary general of the United Nations who became Austria’s president in 1986. In a country of under seven million inhabitants, there were still more than 500,000 registered Nazis in Austria at the end of the war. Austrians were greatly overrepresented in the SS and among concentration-camp staff. Tellingly, over 38 percent of the members of the Vienna Philharmonic orchestra were Nazis, compared with just 7 percent of the Berlin Philharmonic. And in an epilogue on modern European memory, Judt reminds us that the sickness that fueled Auschwitz is not fully cured. In 2000, criticizing a study of a wartime massacre of Jews by their Polish neighbors, Lech Walesa, the hero of Poland’s anti-Communist uprising and a winner of the Nobel Peace Prize, dismissed the study’s author as “a Jew who tries to make money.”

One of the starkest indications of the “Himalayan” task facing Europeans in 1945 was the destruction of the housing stock. Germany had lost 40 percent of its homes, Britain 30 percent and France 20. (In Warsaw 90 percent of homes were gone).

Gottlieb continua, falando da economia européia no pós-guerra e do plano Marshall. [Acima está Man in a Cap por Francis Bacon, uma composição inacabada usando uma foto de Joseph Goebbels, por volta de 1943.]
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Na edição de 5 de junho, a New Yorker trouxe Adam Gopnik comentando dois livros sobre o terror na França revolucionária. Um dos livros é “The Terror: The Merciless War for Freedom in Revolutionary France”, por David Andress. [Abaixo Marat assassiné, por Jacques-Louis David (1793).]

Marat assassiné, por Jacques-Louis David (1793)(…) Andress sets out to demonstrate, the Terror was also a consequence of the reactionary encirclement of France by the other powers of Europe. Those powers had learned nothing and forgotten nothing; they had it in for Republican France, and intended to restore a vengeful absolutism to the throne. What drove the Terror was not a crazed intellectual desire to extend the Revolution to every corner of existence but a desperate desire to maintain its achievements in the face of opposition. Robespierre and his group were revolutionary butchers, but they were butchers surrounded by vampires. “It is necessary to maintain a sense of proportion,” Andress writes in his introduction.

O outro livro vem a detalhar o magistrado deste terror — “Fatal Purity: Robespierre and the French Revolution”, por Ruth Scurr.

“Fatal Purity” is in its way just as rewarding, because of what Robespierre represents: the ascent of the mass-murdering nerd—a man who, having read a book, resolves to kill all the people who don’t like it as much as he does. (…) It is often said that terror of this kind is possible only when one has first “dehumanized” some group of people—aristocrats, Jews, the bourgeoisie. In fact, what motivated the spectacle was exactly the knowledge that the victims were people, and capable of feeling pain and fear as people do. We don’t humiliate vermin, or put them through show trials, or make them watch their fellow-vermin die first. The myth of mechanical murder is almost always only that.

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Para terminar o post com aspectos mais nobres da natureza humana, outro comentário que vale a pena ser lido do começo ao fim é Renaissance Man, também por Adam Gopnik (New Yorker de 17 de janeiro de 2005), falando de dois livros recentemente publicados sobre a vida de Leonardo da Vinci.

When I was a teen-ager, I wrote a science-fiction story about Leonardo da Vinci. (…) Sensing, sadly but with characteristic prescience, that the market in occult stories involving strange codes hidden in Leonardo’s works was essentially nil, I left the story unfinished; just recently, a new pair of Leonardo books brought it to mind. The basic notion—that Leonardo is so weird that he might as well be from another planet—turns out to be hardy enough to have survived even a century of scholarship aimed at replacing romantic, otherworldly Leonardo with historical Leonardo, a man of his time.

Gopnik apresenta “Leonardo”, por Martin Kemp, e “Leonardo da Vinci: Flights of the Mind”, por Charles Niccholl. O primeiro o sumário de sua obra, o segundo recheado de história social e especulação bem embasada. Nas palavras de Gopnik:

[T]hey complement each other almost perfectly: Kemp’s is Leonardo seen from the inside out, Nicholl’s from the outside in. Kemp explains Leonardo’s principles of design and his theory of the world from an intense knowledge of his mind and drawings; Nicholl shows where his ideas came from and who paid to subsidize them, through a broad rendering of his life and times.

Ponte Leonardo, Noruega (2001)O comentário de Gopnik é cheio de coisas fascinantes sobre a vida e obra de Leonardo, como sua tentativa de transcender arte e beleza na busca por um sistema universal de proporção que explicasse a natureza — o que, ele não sabia, dois séculos mais tarde seria chamado de força gravitacional por Isaac Newton. Já que lhe faltava uma matemática mais avançada, seus processos mentais eram visuais e geométricos. [Na foto à esquerda, a Ponte Leonardo em Aas, Noruega, construída em 2001 a partir de uma idéia de Leonardo em 1502.]

E Gopnik tem mais a dizer sobre a imensa popularidade de estórias envolvendo códigos escondidos nos trabalhos de Leonardo…

A cultural anthropologist, a hundred years from now, will doubtless find, in the unprecedented success of “The Da Vinci Code” during the time of a supposed religious revival, some clear sign that, in the Elvis mode, what a lot of Americans mean by spirituality is simply an immense openness to occult superstitions of all kinds.

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NY Times: He Who Cast the First Stone Probably Didn’t

julho 25, 2006 at 11:57 pm (abstraindo, matutando)

Isacco respinge Esaù, atribu�do à Giotto di Bondone (1290-1295)O New York Times de ontem trouxe um artigo que explica muito bem como os conflitos e agressões domésticas e políticas se escalam: He Who Cast the First Stone Probably Didn’t, por Daniel Gilbert. Virtualmente em todas as sociedades e religiões, a retribuição de uma agressão dá justificativa aceitável para fazer-se aquilo que seria proibido em outras condições. Mas estudos recentes mostram que o indivíduo se lembra das causas de suas próprias ações, mas somente das consequências das ações do outro — isto é, o indivíduo usualmente não se lembra do que fez para causar uma ação do outro.

In a study conducted by William Swann and colleagues at the University of Texas, pairs of volunteers played the roles of world leaders who were trying to decide whether to initiate a nuclear strike. The first volunteer was asked to make an opening statement, the second volunteer was asked to respond, the first volunteer was asked to respond to the second, and so on. At the end of the conversation, the volunteers were shown several of the statements that had been made and were asked to recall what had been said just before and just after each of them.

The results revealed an intriguing asymmetry: When volunteers were shown one of their own statements, they naturally remembered what had led them to say it. But when they were shown one of their conversation partner’s statements, they naturally remembered how they had responded to it. In other words, volunteers remembered the causes of their own statements and the consequences of their partner’s statements.

Um outro estudo conduzido no University College London mostra que as pessoas tendem a retribuir cutucadas com força 40% maior…

Although volunteers tried to respond to each other’s touches with equal force, they typically responded with about 40 percent more force than they had just experienced. Each time a volunteer was touched, he touched back harder, which led the other volunteer to touch back even harder. What began as a game of soft touches quickly became a game of moderate pokes and then hard prods, even though both volunteers were doing their level best to respond in kind.

Each volunteer was convinced that he was responding with equal force and that for some reason the other volunteer was escalating. Neither realized that the escalation was the natural byproduct of a neurological quirk that causes the pain we receive to seem more painful than the pain we produce, so we usually give more pain than we have received.

José atirado no poço, por Messire Jehan de Mandeville (1360-1370)A tragédia aumenta quando os adversários não são do mesmo tamanho. Em 28 de fevereiro o New York Times trouxe Beyond Rivalry, a Hidden World of Sibling Violence, Katy Butler fala de como os grandes intimidam os pequenos, e se estes tentam retribuir as coisas pioram. E os pais confortavelmente ignoram o que acontece debaixo do seu nariz. Ano passado li um livro um tanto chocante mas muito elucidativo, A Natural History of Families, por Scott Forbes. O autor descreve como em várias espécies — inclusive a humana — a rivalidade entre irmãos é alimentada pelos pais que, conscientemente ou não, querem ver os filhos disputando pelo seu amor e cuidados. O que nos faz humanos é lutar contra tal impulso, mas ainda assim o impulso é forte e persistente, mesmo que os recursos para cuidar da prole sejam abundantes. Amor fraterno e proteção dos mais fracos são construções sociais da civilização humana — nada naturais.

Lá em cima está Isacco respinge Esaù (1290-1295), um afresco na Basilica di San Francesco em Assisi, atribuído à Giotto di Bondone. Mais abaixo, José atirado no poço, uma iluminura para o livro do Gênesis por Messire Jehan de Mandeville (1360-1370), J. Paul Getty Museum em Los Angeles.


								

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New Yorker: American Abstract

julho 25, 2006 at 9:54 pm (abstraindo, matutando)

Autumn Rhythm - Number 30, por Jackson Pollock (1950)

Dia 11 de agosto próximo estará fazendo 50 anos da morte de Jackson Pollock. A New Yorker de 31 de julho traz um artigo falando da exposição celebrando sua obra no Guggenheim, sua vida e trabalho: American Abstract, por Peter Schjeldahl.

Born in Wyoming, Pollock came to New York, from California, in 1930. He was mentored at the Art Students League by Wood’s American Scene colleague Thomas Hart Benton. He soon found the Expressionist and Surrealist tendencies of the downtown avant-garde more congenial than Benton’s mannered figuration, partly because he was tormented by a belief that he could never draw properly. But a sense of nationalist mandate stayed with him. It’s an undertone in his famous reply to the German painter and pedagogue Hans Hofmann, who had suggested that he try working from nature: “I am nature.” The glowering Westerner who became known as Jack the Dripper seemed to speak not just for the country but as it, in person: the Great American Painter, at a moment that was hot for Great American thises and thats. His helplessly photogenic, clenched features, broadcast by Life in 1949, made him a pinup of seething manhood akin to Marlon Brando. It wasn’t even necessary that Pollock be a great artist, though he was. Unlike Wood, he countered the humiliating authority of European modern art not by rejecting it but by eclipsing it. Abstraction may have still scandalized most Americans, but suddenly it was a homegrown scandal, with nothing sissified about it. The macho pose, an obligatory overcompensation for aestheticism in the nineteen-fifties, ill suited a man whose ruling emotion was fear, which sprung from an anxious childhood in a ragged, nomadic family. But it sold magazines.

Blue Poles, por Jackson Pollock (1950)Acima está Autumn Rhythm – Number 30, pintado por Jackson Pollock em 1950. O original está no Metropolitan em Nova Iorque, seus mais de 5 metros de largura e quase 3 de altura ocupando uma parede inteira, é um quadro impressionante, a gente se perde dentro dele. Ao lado, Blue Poles (1950), residente na National Gallery of Australia, em Canberra.

Palavras de Eli Siegel em seu artigo “Beauty and Jackson Pollock, Too” (1955):

The unconscious, as artistic, goes after unrestraint, but unrestraint as accurate; and when unrestraint is accurate, the effect on mind is still that of beauty. And:—if his work is successful, there is in this work, power and calm, intensity and rightness, unrestraint and accuracy—and these, felt at once, make for beauty.

Para brincar de Pollock, eu recomendo jacksonpollock.org (este flash foi roubado de Michal Migurski, mas a vantagem é que permite trocar as cores de tinta).

..

Este exemplar da New Yorker vem também com um artigo sobre a Wikipedia, que em março atingiu 1 milhão de artigos (a Encyclopædia Britannica tem apenas 120 mil): Can Wikipedia conquer expertise?, por Stacy Schiff.

[Jimmy Wales, Wikipedia’s founder] says that he is on a mission to “distribute a free encyclopedia to every single person on the planet in their own language,” and to an astonishing degree he is succeeding. Anyone with Internet access can create a Wikipedia entry or edit an existing one. The site currently exists in more than two hundred languages and has hundreds of thousands of contributors around the world. Wales is at the forefront of a revolution in knowledge gathering: he has marshalled an army of volunteers who believe that, working collaboratively, they can produce an encyclopedia that is as good as any written by experts, and with an unprecedented range.

Wikipedia is an online community devoted not to last night’s party or to next season’s iPod but to a higher good. It is also no more immune to human nature than any other utopian project. Pettiness, idiocy, and vulgarity are regular features of the site. Nothing about high-minded collaboration guarantees accuracy, and open editing invites abuse.

encyclopedie2.jpg(…) As was the Encyclopédie [by Diderot and d’Alembert, 1751-80], Wikipedia is a combination of manifesto and reference work. Peer review, the mainstream media, and government agencies have landed us in a ditch. Not only are we impatient with the authorities but we are in a mood to talk back. Wikipedia offers endless opportunities for self-expression. It is the love child of reading groups and chat rooms, a second home for anyone who has written an Amazon review. This is not the first time that encyclopedia-makers have snatched control from an élite, or cast a harsh light on certitude.

Preciosas instruções para curar soluços, via Wikipedia.

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NY Times: New Klimt in Town

julho 15, 2006 at 5:26 pm (abstraindo, matutando, viajando)

Ao lado está o retrato de Adele Bloch-Bauer, pintado por Gustav Klimt em 1907. Recentemente comprado por Ronald Lauder por, especula-se, 135 milhões de verdinhas, o retrato já está pendurado na Neue Galerie for German and Austrian Art, Manhattan, para que o público possa absorver sua beleza.

Ontem o New York Times trouxe New Klimt in Town: The Face That Set the Market Buzzing, por Michael Kimmelman. Vale ler o artigo do começo ao fim. Kimmelman conta a interessante estória do retrato (durante anos travou-se uma luta entre a justa herdeira do retrato e o governo Austríaco), e deliciosamente repete a frase “too expensive”. Kimmelman fala também sobre outros quadros de Klimt que estão temporariamente acompanhando Adele na Neue Galerie (inclusive Adele Bloch-Bauer II, 1912), e sobre preço e valor de arte.

For that amount, assuming it is what Mr. Lauder paid, his portrait of Adele, a hedonistic masterpiece, will be talked about in terms of how many lives might have been saved or how many lifted from poverty for this sum.

It’s inevitable. But ludicrous. The Met spent more than $45 million two years ago for a tiny Duccio “Madonna and Child” whose modesty seems its most endearing virtue. The tipping point between endearing and hedonistic is evidently somewhere around $100 million.

As for the border separating public interest from private enterprise, it has never been fixed. The Neue Galerie is Christie’s annex now, exhibiting paintings for sale ($15 general admission, no children under 12 allowed), whose display is also a public service.

Someday Adele will be seen for just what she is: beautiful, a gift to the city. And $135 million may even come to look like a bargain.

Eu assino embaixo, e publico aqui meu agradecimento a Lauder por ter pendurado este retrato numa galeria aberta à visitação pública. É o que chamo de dinheiro bem gasto.

Christopher Knight, crítico de arte do L.A. Times, escreveu sobre a obra de Klimt em abril passado:

As a pair, “Adele I” and “II” create a captivating dialogue of Klimt’s artistic trajectory at an unparalleled moment — a conversation centered on the Jewish patron critical to it. Together they begin to tell the heady story of Vienna as a profound social, intellectual and artistic engine driving modern culture before World War I.

(…) Why is the 1907 portrait so significant artistically? Think of it as a hinge — a pivot between a moribund, impossibly constricted world about to vanish forever and a new one whose contours could only be imagined.

With an exquisitely rendered image of a pretty, contemplative and artful young woman — his likely lover — the artist transformed an illustrious classical myth into a metaphor of creative ecstasy. Adele is Klimt’s Danae.

In the ancient myth, the beautiful princess Danae was locked away in a bronze tower by her father, who had been warned by an oracle that one day her son would kill him. The randy Zeus — a god who loved a challenge almost as much as sex — devised a way to get to the imprisoned virgin. He transformed himself into a shower of gold dust, seeping through cracks in the ceiling and enveloping, irradiating and impregnating her.

Painters from Titian to Edward Burne-Jones painted the Greek myth, at times casting the characters in their Roman guises. In a monumental 1603 version of the story painted by the great Dutch Mannerist Hendrik Goltzius — a masterpiece already in LACMA’s collection — the shocking theme is mercenary love. Danae, a sumptuous nude asleep on a pillow of platinum-colored satin amid a flurry of impish cherubs, is attended by a grizzled crone acting as procurer for the impatient Jupiter; leering Mercury, Roman god of commerce, looks on with glee. Greed and power are about to soil purity.

Klimt also painted the myth, in an explicitly sexual work still in a private Austrian collection. But Adele, his metaphoric Danae, is a thoroughly modern Jewish woman of taste, style, brains and means. The artist showers her in a torrent of gold, the light enveloping her body and ready to re-conceive the world.

Knight continua, comparando Adele à Les Demoiselles d’Avignon de Picasso, também de 1907, e o retrato posterior de Adele por Klimt em 1912. O artigo é fascinante.

Gostei muito de ler o que Kimmelman e Knight escreveram, especialmente porque ontem também saiu um artigo no Wall Street Journal que me deixou soltando fumaçinhas: Shopping-Mall Masters, por Kelly Crow. Crow fala sobre quadros com pores-de-sol fosforescentes, unicórnios e golfinhos saltitantes, daqueles que a gente torce o nariz ao ver num quarto de hotel ou sala de espera, que valem $10 e estão sendo vendidos por $300.000 e, no caso de um certo “pintor” que tem lojinhas em muitas cidades turísticas americanas, 4 milhões de dólares. Vá entender. Oscar Wilde disse que cínico é o homem que sabe o preço de tudo e o valor de nada. Tem gente, e muita gente, que não sabe nem o preço.

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SigSag

julho 10, 2006 at 5:01 pm (abstraindo, matutando)

Acaba de entrar em órbita o SigSag, blog da minha irmã tecelã, bordadeira, escultora, tricoteira, crocheteira, florista e tantas outras coisas. Eu vinha insistindo com ela que criasse um blog para registrar suas artes, pois muitas coisas ela dá de presente e assim acaba esquecendo do que já fez.

Cada peça tem toda uma estória, além da beleza dos materiais crus e do produto final, existe a inspiração, o aprendizado das técnicas, as conversas de quando se estava trabalhando com mais alguém. São lembranças tão importantes e que a gente retoma cada vez que olha para aquele trabalho.

Minerva et les Muses, por Jacques Stella, 1640-45Minha amiga Gisele foi quem me inspirou a convencer minha irmã a criar seu próprio blog. E agora a Gisele e seu grupo de amigas arteiras criaram um blog dos seus encontros semanais de costura, quilting, bordados e troca de receitas culinárias. Batizaram-no de Minerva’s Circle, em homenagem à deusa romana dos trabalhos manuais e sabedoria. Ao lado está Minerva et les Muses, por Jacques Stella (1640-45).

Quando eu era criança, minhas tias e suas amigas se reuniam semanalmente na casa da minha avó, e ficavam trabalhando nos seus crochês, bordados e maquinações. Era muito divertido, peças maravilhosas foram criadas nestes encontros, as inspirações se multiplicavam, as técnicas eram passadas de uma à outra. Minha avó fazia uns riscos à mão livre e saia bordando com fios e fitas. Ela podia tirar a idéia de uma revista ou de outra pessoa, mas ao invés de copiar exatamente ela criava os moldes com as próprias mãos e ia inventando enquanto o trabalho tomava forma. Quantas bolsas, toalhas de mesa, vestidos e blusas nós sobrinhas e netas ganhamos, uma peça mais linda que a outra. Felizmente ainda tenho comigo alguns dos tesouros criados pela avó e tia que já se foram.

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WSJ: Bombay Rude? Hard to Digest!

junho 26, 2006 at 11:57 pm (matutando, viajando)

Hoje o Wall Street Journal trouxe Bombay Rude? Hard to Digest!, por Suketu Mehta. O autor fala de sua surpresa ao ver os resultados de uma pesquisa pelo Readers Digest sobre a gentileza em cidades de 60 países, indicando Bombaim (Mumbai) como cidade mais rude do mundo, e Nova Iorque como a mais gentil.

Londres, por Colin Gregory PalmerDe acordo com a pesquisa, Bombaim é rude porque falhou nas três medidas de polidez adotadas pelo Readers Digest: as pessoas não dizem obrigado, não seguram portas para os outros, e não ajudam estranhos a catar papéis caídos. Só esqueceram de dizer que indianos costumam agradecer sem palavras usando um movimento da cabeça, que os prédios onde a pesquisa foi feita têm porteiros, e que já tem tanto lixo nas ruas de Bombaim que ao ver-se uma pessoa deixando algo cair, imagina-se que foi atitude intencional. (Ao lado vai uma foto em Londres, por Colin Gregory Palmer.)

Suketu Mehta conhece bem as duas cidades, é autor de Maximum City: Bombay Lost and Found, e já escreveu para o New York Times falando da renascença do Brooklyn. Agora ele sugere uma nova pesquisa usando as suas medidas de cortesia cívica: se os usuários de transporte público abrem lugar para mais uma pessoa se sentar, se adultos sorriem para filhos de estranhos mesmo que a criança seja barulhenta, e se pessoas comendo numa cabine de trem compartilham sua comida com estranhos.

Finalmente, Mehta reproduz um parágrafo de um artigo escrito por ele mesmo e publicado na Readers Digest em 1997:

“If you are late for work in Mumbai and reach the station just as the train is leaving the platform, don’t despair. You can run up to the packed compartments and find many hands unfolding like petals to pull you on board. And while you will probably have to hang on to the door frame with your fingertips, you are still grateful for the empathy of your fellow passengers, already packed tighter than cattle, their shirts drenched with sweat in the badly ventilated compartment. They know that your boss might yell at you or cut your pay if you miss this train. And at the moment of contact, they do not know if the hand reaching for theirs belongs to a Hindu or a Muslim or a Christian or a Brahmin or an Untouchable. Come on board, they say. We’ll adjust.”

Isto é o que o autor chama de abrir portas para os outros. Eu concordo. Nesta cidade da Flórida onde moro é comum duas pessoas ocuparem um banco de quatro lugares com suas mochilas ou pés, para evitar que alguém se sente ao lado, e ignorando pessoas idosas ou gestantes que estejam por perto. Dentro do ônibus, os estudantes de pé mantém enorme distância uns dos outros, muito embora muitos outros estudantes queiram entrar e o motorista peça para quem já está no ônibus fazer espaço. Quem está de fora continua por lá, esperando por 30 minutos pelo próximo ônibus, e perdendo a hora da aula.

O individualismo é extremo. Difícil de entender que estudantes não se solidarizem com outros estudantes. Qualquer contato visual é evitado, e as únicas conversas ouvidas são carregadas através de telefones celulares. Ah, quanta oportunidade de paquera é perdida…

Ano passado ocorreu um episódio interessante. Passei uns dias num dormitório de estudantes em Nantucket, visitando meu marido que fazia um curso por lá. Trouxe chocolate brasileiro para dividir com os cinco companheiros de dormitório, e meu marido e eu compramos ingredientes e preparamos um jantar para todos nós. Estávamos sem sobremesa, pois o chocolate já tinha sido comido antes do jantar. Um dos rapazes que mais tinha se servido do chocolate brasileiro se levantou da mesa, pegou um pacote cheio de chocolates no seu quarto, serviu-se de dois pedaços na nossa frente, e voltou para mastigá-los na nossa companhia. Eu quase entro em estado de choque cada vez que lembro do ocorrido.

Mas também atesto para a realidade de que aqui se diz obrigado exaustivamente, as pessoas costumam segurar a porta para quem vem atrás e, tirando os dias de jogos e desfiles, dificilmente se vê um papel caído na rua.

Em minha primeira visita à Buffalo, cidade no estado de Nova Iorque na fronteira com o Canadá, estacionamos junto ao correio para olhar o mapa e conferir que estávamos na direção certa. Uma senhora bateu no vidro do carro, pensamos que fôssemos levar uma bronca por ter estacionado em lugar proibido. Não, ela tinha nos visto com o mapa e estava perguntando se estávamos perdidos ou precisávamos de ajuda. Em visitas subseqüentes àquela cidade, confirmei a extrema gentileza e civilidade de seus residentes.

Quanto à cidade de Nova Iorque, não conheço melhor exemplo de sua civilidade do que quando houve o atentado terrorista no World Trade Center, e as pessoas foram descendo as escadas sem se atropelarem umas às outras, mesmo sabendo que talvez não houvesse tempo para todos chegarem lá embaixo antes do prédio ruir. Numa situação dessas não haver empurra-empurra fala muito a respeito de um povo.

Estes dias eu estava esperando pelo ônibus e, embora houvesse dois outros bancos vazios, um rapaz de aspecto sul-asiático sentou-se ao meu lado. Abriu um vasilhame e, antes de começar a comer, me ofereceu para partilhar de sua refeição. Recusei mas agradeci, dando-lhe um sorriso direto nos olhos, e fiquei pensando em como seria bom ter o melhor dos dois mundos.

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NY Times: What Shamu Taught Me About a Happy Marriage

junho 25, 2006 at 12:47 pm (matutando)

Mulheres do mundo, aqui vai preciosa informação de como lidar com seus maridos, publicada no New York Times de hoje: What Shamu Taught Me About a Happy Marriage, por Amy Sutherland. 

As I wash dishes at the kitchen sink, my husband paces behind me, irritated. "Have you seen my keys?" he snarls, then huffs out a loud sigh and stomps from the room with our dog, Dixie, at his heels, anxious over her favorite human's upset.

In the past I would have been right behind Dixie. I would have turned off the faucet and joined the hunt while trying to soothe my husband with bromides like, "Don't worry, they'll turn up." But that only made him angrier, and a simple case of missing keys soon would become a full-blown angst-ridden drama starring the two of us and our poor nervous dog.

Now, I focus on the wet dish in my hands. I don't turn around. I don't say a word. I'm using a technique I learned from a dolphin trainer.

(…) The central lesson I learned from exotic animal trainers is that I should reward behavior I like and ignore behavior I don't. After all, you don't get a sea lion to balance a ball on the end of its nose by nagging. The same goes for the American husband.

O artigo prossegue explicitando algumas técnicas e conceitos. 

Faz-me lembrar de uma comédia engraçadíssima nos anos 60, If a Man Answers, em que Sandra Dee adestrava o seu marido. Engraçada hoje, pois na época parece ter deixado muita gente ofendida

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New Yorker: What I Learned

junho 22, 2006 at 12:23 am (matutando, sorrindo)

David Sedaris está na New Yorker de 26 de junho, discorrendo sobre os frutos de sua educação em Princeton: What I Learned.

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Futebol e personalidades geopolíticas

junho 19, 2006 at 7:05 pm (matutando, torcendo)

Generalizações são sempre perigosas, mas quem resiste à tentação? Michael J. Agovino do New York Times fala da neurose dos holandeses, a paranóia persecutória dos italianos, o pessimismo melodramático dos ingleses, e naturalmente, o transtorno bipolar do torcedor brasileiro em Losses, and the Losing Losers Who Hate Them:

One favorite response is scapegoating. In 1950, Brazil, the host and favorite, lost in the final to Uruguay. The author Alex Bellos, in his book "Futebol: Soccer, the Brazilian Way," writes that the goalkeeper, Barbosa, "became the personification of the national tragedy." He died 50 years later, apparently unforgiven by his countrymen.

Although Brazil has suffered cataclysmic defeats in addition to 1950's, it has won a record five World Cups.

"Brazilians, to generalize awfully, are emotionally bipolar," Mr. Bellos, who divides his time between England and Brazil, said in an interview. "Everything is either the best in the world or the worst in the world. They have a superiority complex in terms of football, yet the flipside is a developing nation's crushing insecurity complex. When they win they forget their problems. They are the happy, party-loving. When they lose it reinforces a sense that they are useless and predestined towards failure — not just in football but in everything."

O artigo é interessante, mas carece de um comentário sobre nuestros hermanos porteños. Conhecidos que são pela abundância de psicólogos e psicanalistas per capita, é até injusto que logo as suas paranóias tenham ficado de fora.

No Wall Street Journal deste último sábado, Henry Kissinger (o próprio & continuando) falou de seu amor pelo esporte e fez suas próprias generalizações em entrevista para Frederick Kempe, Couch-Potato Diplomacy:

He's fascinated with how national characteristics translate into playing styles: Brazil's unbridled joy, England's noble purpose, Germany's grim determination.

Aqui eu faço parêntesis e peço que alguém me elucide sobre os nobres propósitos da Inglaterra. Falando de política externa ou história dos últimos 500 anos, parece piada, então eu lembro que (1) agora mesmo eu estava falando de delírios; (2) o comentário veio de alguém que já ganhou o prêmio Nobel da paz, e não foi na Ilha da Fantasia. Mas mesmo que eu limite o comentário à futebol, no momento só consigo lembrar do Peter Crouch puxando as madeixas de Brent Sancho no jogo contra Trinidade e Tobago.

"When a Brazilian team is in good form, it looks like a ballet coming down the field. There are two troubles with the Brazilians: One is they get so infatuated with their dancing and acrobatics that they sometimes forget to shoot goals. The other is they often don't have a good goalkeeper. My explanation is that he doesn't like staying back and not joining the fun."

Dr. Kissinger worries that globalization is "brutalizing" the Brazilians, who have lost some of their Latin panache. All but three of their 11 players have had their styles dulled by playing in the highest-paying but more-conformist European leagues, he says.

Palavras que falam tanto de quem as proferiu quanto do objeto da discussão:

He has high praise for the Argentinians. "They have many of the skills of the Brazilians, but are ruthlessly oriented toward scoring goals and doing whatever is necessary to win," he says.

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Corrente pra frente

junho 17, 2006 at 2:18 pm (matutando, torcendo)

Esta é de quatro anos atrás, mas o momento é oportuno… Corrente pra frente (via A vida em palavras).

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Cosmonada

junho 15, 2006 at 9:33 pm (matutando)

Parece que plantar feijões em órbita foi o bastante para saciar a sede por experimentos científicos do astronauta Marcos Pontes. Um trecho de Cosmonada, por Álvaro Alves de Faria:

Astronauta brasileiro é assim mesmo. Nem bem saiu do Palácio do Planalto, soube-se que a Procuradoria-geral Militar determinara a abertura de uma investigação para apurar as denúncias de que ele estava cobrando para fazer palestras, o que é proibido no Código Militar. A Procuradoria também determinou a apuração da acusação de que o astronauta tem ligações com sites que comercializam objetos que levam seu nome. Alguns dias depois, o astronauta brasileiro não descartou a possibilidade de entrar para a política, se concluir que essa será a melhor maneira de servir o Brasil.

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The Oxford Project

junho 8, 2006 at 6:31 pm (abstraindo, matutando)

Durante a primavera e verão de 1984 Peter Feldstein fotografou 670 dos 673 habitantes de Oxford, Iowa. 21 anos depois, Feldstein volta para fotografar aqueles que ainda moram na cidade, desta vez acompanhado pelo escritor Stephen G. Bloom (via BoingBoing).

Peter invited me to work with him. “Ask Oxford people to share their stories with you,” he said. By now I’ve conducted dozens of interviews. Some people talk about religion, others about relationships gone bad. Some break down in tears, recalling incidents they had not, or rarely, acknowledged before. There is a great deal of courage in what people say. The language of not just a few is pure poetry.

The Oxford Project O menino que sonhava ser motorista de caminhão como seu pai faz reformas residenciais, e acaba de receber a visita do primo Ashton Kutcher, avec; o veterano da segunda guerra foi um dos quatro soldados que fizeram o reconhecimento do campo de concentração em Buchenwald; a senhora de 96 anos está convicta que Deus vai lhe abrir as portas do céu.

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Primeiro Simpósio Vegetariano de Curitiba

junho 7, 2006 at 1:55 pm (matutando, misturando, verdejando)

Agradeço à escritora Regina Rheda minha alegria ao confirmar que o mundo está realmente evoluindo. Não bastasse a Sociedade Vegetariana Brasileira estar presente em Curitiba, o capítulo desta cidade está promovendo o Primeiro Simpósio Vegetariano de Curitiba, de 23 à 25 de junho de 2006. A entrada é franca, o programa segue abaixo. Confirmação de presença e maiores informações com Rodrigo (41-3362-3166/41-9603-4499) ou Gilmar (41-8418-8773/41-9904-0338).

E em São Paulo, de 4 a 8 de agosto de 2006, o Primeiro Congresso Vegetariano Brasileiro e Latino-americano!

Que bom que as coisas estão mudando. Ser vegetariano no Brasil não é fácil. Nos Estados Unidos e na Europa a situação não é muito melhor, mas o vegetarianismo é mais comum. Como será no resto do mundo? No Brasil muita gente acha que é frescura, coisa de quem quer chamar a atenção. E embora haja enorme escolha de frutas e verduras deliciosas, cozinha e cultura brasileiras são baseadas em carne. No sul do país as comidas são separadas mas prevalece a idéia de que quem não come carne de vaca desmaia de anemia, no centro tudo é misturado e inclui vaca ou porco, no norte tudo tem peixe ou frutos do mar.

Quando eu era criança, adultos e crianças me olhavam com desaprovação, achavam que eu fosse uma criança mimada — muito pelo contrário, em casa eu era forçada a comer todos os tipos de carne. Não podia levantar da mesa enquanto não engolisse todas aquelas coisas que punham no meu prato e que, para o meu paladar, são repugnantes. Adorava ir na casa dos outros e poder recusar as carnes, e ficava muito satisfeita com cenouras, saladas cruas ou batatas, mas existia sempre o desconforto de estar dando trabalho. Meus pais pediam milhões de desculpas aos meus anfitriões, pelo menos na casa dos outros não me forçavam a comer carne. Agradeço a imensa paciência de quem me recebeu, atendeu às minhas restrições, e tolerou minhas perguntas sobre o que tinha dentro das comidas, pois ainda hoje sou muito desconfiada.

Desconfiada sim, pois muita gente acha que dieta vegetariana se resume a não comer carne de vaca ou pedaços sólidos. Volta e meia os não-vegetarianos pensam que comeremos lasagna com presunto, sopa feita com caldo de galinha ou pedaços de carne "para dar gosto", bolinhos com bacon, maionese de camarão, molho de tomate com carne moída, etc.

Teve também quem me pôs à vontade, brincando com a convidada que não dava despesas, "pode vir almoçar aqui em casa todo dia". Tentei levar essa idéia para casa e convencer meus pais de que eu merecia um acréscimo na mesada por ser tão econômica. Eu insistia todo domingo, ao ver a conta do restaurante e confirmar que meu almoço tinha saído de graça ou cinco vezes mais barato que o de qualquer outra pessoa da mesa, mas nunca funcionou.

Hoje encontro quem diz que não mais tolera a digestão da carne vermelha e está pensando em cortar as outras também, mas que tem medo de ficar doente numa dieta vegetariana. Para quem gosta de queijos e ovos isso não é problema, absolutamente. Para quem deseja ser vegan (excluindo qualquer produto animal, inclusive mel) o ideal é fazer a transição aos poucos e verificar a necessidade de complementar a dieta com vitamina B. O cálcio pode ser obtido do leite de soja, legumes e folhas verdes escuras.

Pesquisas científicas têm repetidamente comprovado que o vegetarianismo é extremamente saudável — para o planeta e para o indivíduo. Raros são os vegetarianos com excesso de peso, diabetes ou pressão alta. A incidência de câncer também é significativamente mais baixa, para alguns tipos de câncer quase inexistente.


Primeiro Simpósio Vegetariano de Curitiba
Vegetarianismo: Paz Para Todos Os Seres

P R O G R A M A

Sexta-feira, 23 de junho de 2006

Local: UFTPR (antigo Cefet) – Av. Sete de Setembro 3165, Centro.

  • 19h00min: Conferência – "Vegetarianismo, Preservação Ecológica e Solução para a Fome Mundial", com a socióloga e tradutora Marly Winckler, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira; mostra do capítulo sobre ecologia do filme "A Carne é Fraca" (produção do Instituto Nina Rosa); perguntas da platéia; término do filme.
Sábado, 24 de junho de 2006

Local: TUC – Teatro Universitário de Curitiba – Galeria Júlio Moreira, sem número, Centro (passagem subterrânea entre a Praça Tiradentes e o Largo da Ordem).

  • 9h00min às 9h55min: Conferência – "Ecologia e Vegetarianismo – Se você se importa com o Planeta, seja vegetariano", com a engenheira florestal Michelle M. Althaus Ottmann, paisagista e integrante do Instituto Agroecológico; capítulo sobre ecologia do filme "A Carne é Fraca".
  • 10h30min: Conferência – "O Vegetarianismo e a Sua Saúde – Longevidade e qualidade de vida com a dieta vegetariana" com Marly Winckler; capítulo de saúde do mesmo filme.

Local: SESC Centro – Rua José Loureiro 578, Centro.

  • 14h30min: Conferência – "Direitos dos Animais e Vegetarianismo: os animais têm inteligência, sentimentos e capacidade de sentir dor?"; com Danielle T. Rodrigues, advogada ambientalista e professora universitária; trechos dos filmes "Não Matarás" e "A Carne é Fraca".
  • 16h20min: Mesa Redonda – "Caminhos para a Paz: Vegetarianismo, Esperanto, Preservação Ecológica e Proteção Animal – Experiências e propostas".
Domingo, 25 de junho de 2006

Local: Brahma Kumaris – Rua Professor Macedo Filho 199, Bom Retiro.

  • 9h: Conferência – "Vegetarianismo: Bom para as Pessoas, Bom para os Animais, Bom para o Planeta", com Marly Winckler; perguntas da platéia.
  • 11h: Bate-papo com Marly Winckler sobre a Sociedade Vegetariana Brasileira e o 1? Congresso Brasileiro e Latino Americano (04 a 08 de agosto / São Paulo); filme do Congresso Vegetariano Mundial ocorrido no Brasil em 2004.

Além das conferências e da mesa redonda, haverá outras atrações, com sorteio de brindes, degustação e sessão de autógrafos.

Entrada franca.

Confirmação de presença e/ou mais informações com Rodrigo (41-3362-3166/41-9603-4499) ou Gilmar (41-8418-8773/41-9904-0338).

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NY Times: Most Bonito

junho 7, 2006 at 12:05 am (matutando, torcendo)

Por John Carlin no New York Times deste domingo, Ronaldinho é o Most Bonito:

On top of all that, he plays with a big smile on his face, even when he misses a shot. Whereas so many professionals in every sport seem to carry the world's worries on their faces as they play, Ronaldinho radiates the fun of a carefree 8-year-old boy. (…) He is courteous, too — one of those "After you," "No, after you" types — and seems to have few of the airs and graces one might expect of a regular superstar, to say nothing of the most globally celebrated sportsman alive. He does not strut so much as shuffle, and when asked to describe that goal during which he sent John Terry tumbling to the ground, he gracefully makes excuses for the Englishman. "I had the good fortune to be coming at him having built up some speed, while he was moving from a standing position," he says, "so I had a big advantage."

E falando do futebol brasileiro…

[O]ne of soccer's great truisms: the English invented the game, but the Brazilians perfected it. They found the game brick and left it marble. They patented what has become known the world over as jogo bonito, the beautiful game, a style of soccer that combines exuberance with success and that Ronaldinho, more than any other player alive, embodies. People respect winners, they admire them, but they don't always love them. The bright, canary-yellow shirt of the Brazilian national team — the canarinho shirt, they fondly call it in Brazil — elicits feelings in soccer fans everywhere that unite reverence for Brazil's unquestioned supremacy (it has won the World Cup, held every four years, five times in the last half century) with an affection, a warm sense of personal ownership, that transcends the sport's inherent tribalism. Every neutral fan following this month's World Cup will want Brazil to win, and every soccer-lover with a national stake in the competition will have Brazil as his second team. Soccer is the world's biggest religion, cutting across race, faith, geography, ideology and gender like no other global phenomenon. Brazil is the religion's favorite church.

Mas eu não deveria estar colocando excertos do Most Bonito aqui, há que se ler o artigo inteiro.

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Scientific American: Sustentabilidade em um mundo lotado

junho 6, 2006 at 7:27 pm (matutando, verdejando)

Ontem foi o Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia, e recebi de um amigo o artigo do economista Herman E. Daly publicado na edição brasileira da Scientific American em outubro passado: Sustentabilidade em um mundo lotado. Daly argumenta pelo controle do crescimento econômico e sugere, entre outras coisas, taxas sobre poluentes e extração de recursos naturais ao invés de imposto sobre renda; e regulamentação do comércio para evitar que (des)economias de crescimento desestruturem economias de desenvolvimento sustentável.

Há quem considere sustentabilidade uma idéia essencialmente utópica, algo que não poderá acontecer numa sociedade capitalista. Acontece que dinheiro não substitui comida, a exaustão do meio ambiente eventualmente acarretará numa catástrofe ecológica — a destruição de qualquer economia.

[A corrente principal dos economias contemporâneos], os economistas neoclássicos, considera a sustentabilidade um modismo e se alia ao crescimento.

Mas há fatos evidentes e incontestáveis: a biosfera é finita, não cresce, é fechada (com exceção do constante afluxo de energia solar) e obrigada a funcionar de acordo com as leis da termodinâmica. Qualquer subsistema, como a economia, em algum momento deve necessariamente parar de crescer e adaptar-se a um equilíbrio dinâmico, algo semelhante a um estado estacionário. As taxas de nascimentos devem ser iguais às de mortalidade, e as de produção de commodities devem se igualar às de depreciação.

Durante minha vida (67 anos), a população humana triplicou, e o número de objetos fabricados cresceu muito mais. O total de energia e material necessário para manter e substituir os artefatos humanos na Terra também aumentou enormemente. À medida que o mundo torna-se repleto de humanos e de suas coisas, ele é esvaziado do que havia antes por aqui. Para lidar com esse novo padrão de escassez, os cientistas precisaram desenvolver uma economia de "mundo cheio" para substituir a tradicional, de "mundo vazio".

Depois de propor vários ajustes na política econômica, Daly fala também sobre a noção de felicidade:

Muito provavelmente, os países ricos atingiram o "limite de futilidade", ponto além do qual o crescimento não incrementa a felicidade. Isso não significa que a sociedade de consumo morreu – apenas que o aumento do consumo além do limiar de suficiência, seja ele fomentado por publicidade agressiva ou compulsão inata por compras, simplesmente não está tornando as pessoas mais felizes, em sua própria avaliação.

Este ponto é particularmente interessante, e é explorado por Andy Beckett em Going Cheap, publicado no The Guardian fevereiro passado. O artigo discute as implicações da avalanche de bens de consumo baratos na sociedade britânica:

But after you have bragged about your bargains you have to live with them. (…) "Over the last 10 years," says Hyman, "we calculate that women have doubled the average number of womenswear items they buy in a year." But over the same period, the cost of living space has been rising as fast, or even faster. (…) The solutions may not be elegant. Garden sheds, he says, are growing in popularity, as cheap spaces for general storage rather than tools. (…) Many homeowners have already gone further: in a current article on outer-London suburbia, the sociologist Paul Barker notes that most garages have been given over to "household junk". The cars are parked in people's front gardens.

Não posso deixar de comentar… Nos EUA, embora as casas sejam enormes e as garagens também, os carros já estão do lado de fora há muito tempo.

You could see all this hoarding as a sign of a growing attachment to possessions. But Coombs sees it as the opposite. "What was in the living room this year will be in the bedroom next year and in the junk room the year after," he says. Kasriel says the chance to sell to eBay has boosted much we buy. "You can tell yourself you have a sensible financial route out."

Unashamedly "disposable" cheap goods, you could argue, are turning us into traders rather than curators of our possessions. It is another victory for capitalism: we have internalised the unsentimental stock control of the modern retailer. Juliet Schor, an American economist and leading critic of the bargain boom, thinks this new form of ownership is less pleasurable than the old one. "The psychologically satisfying process of personalisation that occurs when products are acquired and retained, is truncated," she writes in a recent essay. "Attachment is briefer and there is the constant pain of divestiture [getting rid of things]." What individual possessions represent to us is, she says, "more externally driven" – by marketing and advertising – and "less under the control of the individual consumer".

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Cadernos de cinema

maio 24, 2006 at 11:52 pm (abstraindo, matutando)

Nestas últimas semanas nos esbaldamos com vários e excelentes filmes. Vou comentar somente os melhores…

Madame X, de John Singer Sargent (1884)L'Histoire de Marie et Julien (2003), de Jacques Rivette, é um obscuro romance com algumas surpresas interessantes no seu desenrolar, um suspense à la Henry James em The Turn of the Screw. Melhor não contar mais nada para não estragar a estória… O filme tem uma misteriosa Madame X, em nada relacionada à Madame Gautreau (1884) de John Singer Sargent, mas não pude resistir à oportunidade de enfeitar a área com um dos meus retratos favoritos, meu primeiro contato com a obra de Sargent (1856-1925).

La Promesse (1996), de Luc e Jean-Pierre Dardenne, mostra um fragmento da vida de imigrantes ilegais na Bélgica que, imagino, deve ser semelhante ao resto da Europa. O filme é um estudo de caráter, exploração do outro e transformação moral, tem um quê de Central do Brasil.

Caché (2005), de Michael Haneke, é uma provocação à classe média européia e seus ossos no armário. O filme é cheio de ramificações e metáforas politicas sobre racismo, imperialismo, responsabilidades não assumidas, e o pior que ainda está por vir.

De Volker Schlöndorff, Der Fangschuß (1976) e Die Blechtrommel (1979). Der Fangschuß é uma adaptação do romance Le Coup de Grâce, de Marguerite Yourcenar. A estória se passa na Letônia de 1919, a primeira grande guerra acabou mas nos estados bálticos persiste a luta entre a elite prussiana (democrata e nacionalista, buscando independência da Rússia) e os bolcheviques.

É interessante notar que Yourcenar publicou Le Coup de Grâce em 1939. O narrador/protagonista é claramente definido como um nobre abnegado que escolhe voltar à Letônia para lutar pela sua independência, o que ele considera ser uma guerra perdida. Embora o filme acabe antes, os estados bálticos acabam por conseguir sua independência — temporária, pois eles viriam a ser retomados pela Russia na segunda guerra mundial. Mas o episódio histórico é secundário e mal explicado, o que a estória realmente explora são os conflitos românticos e políticos, cheios de ambigüidades.

Die Blechtrommel é a excelente adaptação para o cinema da novela de Günther Grass, de 1959 (O Tambor, no Brasil). A princípio parece ser a alegoria de um gurizinho irritante e manipulativo que, aos três anos de idade na Danzig de 1927, decide parar de crescer. Como a cidade, o menino tem três identidades étnicas, polonesa, alemã e kashúbia. Eventualmente ele recusa as três, livrando-se também de seus relativos Laio, Políbio e Jocasta. Sua recusa em crescer vem a ser sua rejeição do mundo obtuso dos adultos à sua volta, e assim ele consegue flutuar na sua realidade paralela em meio ao caos das próximas décadas. Oskar é o herói não conformista.

Este comentário sobre a obra de Günther Grass, por Ashok Chopra, pode muito bem ser aplicado ao filme:

What migration taught Grass was the meaning (or disruption) of reality: that reality was an artifact, that it does not exist until it is made, and that like any other artifact it can be made well or otherwise. (…) Like all migrants, Grass is much more interested in images than places; he sees the world through ideas, through metaphors which makes some sense of a senseless world."

(…) [The Danzig trilogy – The Tin Drum, Cat and Mouse, Dog Years] also ask embarrassing questions on the complacency of the German middle classes (or the middle classes everywhere) and its willing submission to Authority for the sake of security and the little crumbs of life. (…) Though the main issues are political, the paradigms usually direct us beyond politics or to a dimension that is decidedly prepolitical. It teaches us that human behaviour had best be evaluated by standards that have nothing to do with political systems or ideologies. A fellow like Oscar's father Alfred Matzerth, may decide that it is expedient to wear a Nazi party pin and to attend Nazi rallies, but he is to be understood not as a victim of ideology but of bourgeois conformism that has only an incidental political component.

John Singer Sargent's Lady Agnew of Lochnaw, por John Singer Sargent (1893)The House of Mirth (2000), de Terence Davies, é a adaptação da novela homônima de Edith Wharton, de 1905. A estória é tragica mas bastante realista, uma excelente crítica dos costumes vigentes na sociedade americana no começo do século. Enquanto The Age of Innocence mostra comunicações sufocadas, The House of Mirth esmaga qualquer ilusão romântica sobre a vida das mulheres naquela época. Seja como for, continuo apaixonada pelos vestidos e penteados, fazer o que? Ao lado, também por John Singer Sargent, Lady Agnew of Lochnaw (1893).

O favorito entre todos os filmes foi o documentário Saudade do Futuro (2000), de César Paes e Marie-Clémence, em que imigrantes nordestinos traçam um retrato de sua vida na grande São Paulo. Os depoimentos já são interessantes pelo conteúdo, mas a linguagem que usam e a graça que fazem de si mesmos e do mundo são de aquecer o coração, fui eu que fiquei cheia de saudades. Tem uma cena em que uma senhora está sentada ao lado da filha numa cama, casualmente ela vai desenrolando suas desventuras amorosas, as duas riem o tempo todo. É a cara do Brasil.

Boa parte do documentário mostra repentistas repentindo (não pude resistir). A música é excelente, mas impagável é o vocabulário. Além do humor nas críticas e desafios improvisados, tem aquele uso da linguagem característico do nordeste brasileiro, tão colorido e cheio de poesia.

Uma das minhas grandes amigas por estas bandas é cearense, e com ela aprendi o termo "conversa de miolo de pote", para aqueles papos que não saem do hoje-está-tão-quente. Outras pérolas são emendar os bigodes (brigar), assentar o cabelo (morrer), mulher-de-piôlho (pessoa obstinada) e mamãe-vem-aí (fecho éclair).

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