WSJ: Bombay Rude? Hard to Digest!

junho 26, 2006 at 11:57 pm (matutando, viajando)

Hoje o Wall Street Journal trouxe Bombay Rude? Hard to Digest!, por Suketu Mehta. O autor fala de sua surpresa ao ver os resultados de uma pesquisa pelo Readers Digest sobre a gentileza em cidades de 60 países, indicando Bombaim (Mumbai) como cidade mais rude do mundo, e Nova Iorque como a mais gentil.

Londres, por Colin Gregory PalmerDe acordo com a pesquisa, Bombaim é rude porque falhou nas três medidas de polidez adotadas pelo Readers Digest: as pessoas não dizem obrigado, não seguram portas para os outros, e não ajudam estranhos a catar papéis caídos. Só esqueceram de dizer que indianos costumam agradecer sem palavras usando um movimento da cabeça, que os prédios onde a pesquisa foi feita têm porteiros, e que já tem tanto lixo nas ruas de Bombaim que ao ver-se uma pessoa deixando algo cair, imagina-se que foi atitude intencional. (Ao lado vai uma foto em Londres, por Colin Gregory Palmer.)

Suketu Mehta conhece bem as duas cidades, é autor de Maximum City: Bombay Lost and Found, e já escreveu para o New York Times falando da renascença do Brooklyn. Agora ele sugere uma nova pesquisa usando as suas medidas de cortesia cívica: se os usuários de transporte público abrem lugar para mais uma pessoa se sentar, se adultos sorriem para filhos de estranhos mesmo que a criança seja barulhenta, e se pessoas comendo numa cabine de trem compartilham sua comida com estranhos.

Finalmente, Mehta reproduz um parágrafo de um artigo escrito por ele mesmo e publicado na Readers Digest em 1997:

“If you are late for work in Mumbai and reach the station just as the train is leaving the platform, don’t despair. You can run up to the packed compartments and find many hands unfolding like petals to pull you on board. And while you will probably have to hang on to the door frame with your fingertips, you are still grateful for the empathy of your fellow passengers, already packed tighter than cattle, their shirts drenched with sweat in the badly ventilated compartment. They know that your boss might yell at you or cut your pay if you miss this train. And at the moment of contact, they do not know if the hand reaching for theirs belongs to a Hindu or a Muslim or a Christian or a Brahmin or an Untouchable. Come on board, they say. We’ll adjust.”

Isto é o que o autor chama de abrir portas para os outros. Eu concordo. Nesta cidade da Flórida onde moro é comum duas pessoas ocuparem um banco de quatro lugares com suas mochilas ou pés, para evitar que alguém se sente ao lado, e ignorando pessoas idosas ou gestantes que estejam por perto. Dentro do ônibus, os estudantes de pé mantém enorme distância uns dos outros, muito embora muitos outros estudantes queiram entrar e o motorista peça para quem já está no ônibus fazer espaço. Quem está de fora continua por lá, esperando por 30 minutos pelo próximo ônibus, e perdendo a hora da aula.

O individualismo é extremo. Difícil de entender que estudantes não se solidarizem com outros estudantes. Qualquer contato visual é evitado, e as únicas conversas ouvidas são carregadas através de telefones celulares. Ah, quanta oportunidade de paquera é perdida…

Ano passado ocorreu um episódio interessante. Passei uns dias num dormitório de estudantes em Nantucket, visitando meu marido que fazia um curso por lá. Trouxe chocolate brasileiro para dividir com os cinco companheiros de dormitório, e meu marido e eu compramos ingredientes e preparamos um jantar para todos nós. Estávamos sem sobremesa, pois o chocolate já tinha sido comido antes do jantar. Um dos rapazes que mais tinha se servido do chocolate brasileiro se levantou da mesa, pegou um pacote cheio de chocolates no seu quarto, serviu-se de dois pedaços na nossa frente, e voltou para mastigá-los na nossa companhia. Eu quase entro em estado de choque cada vez que lembro do ocorrido.

Mas também atesto para a realidade de que aqui se diz obrigado exaustivamente, as pessoas costumam segurar a porta para quem vem atrás e, tirando os dias de jogos e desfiles, dificilmente se vê um papel caído na rua.

Em minha primeira visita à Buffalo, cidade no estado de Nova Iorque na fronteira com o Canadá, estacionamos junto ao correio para olhar o mapa e conferir que estávamos na direção certa. Uma senhora bateu no vidro do carro, pensamos que fôssemos levar uma bronca por ter estacionado em lugar proibido. Não, ela tinha nos visto com o mapa e estava perguntando se estávamos perdidos ou precisávamos de ajuda. Em visitas subseqüentes àquela cidade, confirmei a extrema gentileza e civilidade de seus residentes.

Quanto à cidade de Nova Iorque, não conheço melhor exemplo de sua civilidade do que quando houve o atentado terrorista no World Trade Center, e as pessoas foram descendo as escadas sem se atropelarem umas às outras, mesmo sabendo que talvez não houvesse tempo para todos chegarem lá embaixo antes do prédio ruir. Numa situação dessas não haver empurra-empurra fala muito a respeito de um povo.

Estes dias eu estava esperando pelo ônibus e, embora houvesse dois outros bancos vazios, um rapaz de aspecto sul-asiático sentou-se ao meu lado. Abriu um vasilhame e, antes de começar a comer, me ofereceu para partilhar de sua refeição. Recusei mas agradeci, dando-lhe um sorriso direto nos olhos, e fiquei pensando em como seria bom ter o melhor dos dois mundos.

7 Comentários

  1. Gisele said,

    Muito interessante essa pesquisa. Eles deveriam incluir na pesquisa sobre gentileza se as pessoas sao simpaticas com criancas. Posso te assegurar que seria um bom termometro, pois e’ incrivel como tolerancia com crianca varia de lugar para lugar.
    beijos, Gisele

  2. strambinha said,

    Pois é, Gisele. Estes tempos li um artigo de gente que quer proibir crianças de até uma certa idade a viajar de avião. Pode???

  3. Colin Gregory Palmer said,

    Thanks for using my photograph. Would you mind changing the link to my homepage at http://www.ColinGregoryPalmer.net

  4. strambinha said,

    Sure! And thank you for the photograph!

  5. Ines _ Sweden said,

    Menina, que blog gostoso de ler…
    ja adicionei aos favorits!

  6. strambinha said,

    Obrigada, Ines!

  7. Carolina said,

    Vou compartilhar o que li aqui hj com os meus colegas de classe. Acho que de certa maneira somos privilegiados por poder ter acesso ao de ruim e ao de melhor de mais de uma cultura. Vou passar a visitar aqui mais vezes.

    Ah, que isso do menino do chocolate hein? Se bem que se tiver até uns 3 anos de idade é normal fazer isso.

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