Cadernos de cinema

maio 24, 2006 at 11:52 pm (abstraindo, matutando)

Nestas últimas semanas nos esbaldamos com vários e excelentes filmes. Vou comentar somente os melhores…

Madame X, de John Singer Sargent (1884)L'Histoire de Marie et Julien (2003), de Jacques Rivette, é um obscuro romance com algumas surpresas interessantes no seu desenrolar, um suspense à la Henry James em The Turn of the Screw. Melhor não contar mais nada para não estragar a estória… O filme tem uma misteriosa Madame X, em nada relacionada à Madame Gautreau (1884) de John Singer Sargent, mas não pude resistir à oportunidade de enfeitar a área com um dos meus retratos favoritos, meu primeiro contato com a obra de Sargent (1856-1925).

La Promesse (1996), de Luc e Jean-Pierre Dardenne, mostra um fragmento da vida de imigrantes ilegais na Bélgica que, imagino, deve ser semelhante ao resto da Europa. O filme é um estudo de caráter, exploração do outro e transformação moral, tem um quê de Central do Brasil.

Caché (2005), de Michael Haneke, é uma provocação à classe média européia e seus ossos no armário. O filme é cheio de ramificações e metáforas politicas sobre racismo, imperialismo, responsabilidades não assumidas, e o pior que ainda está por vir.

De Volker Schlöndorff, Der Fangschuß (1976) e Die Blechtrommel (1979). Der Fangschuß é uma adaptação do romance Le Coup de Grâce, de Marguerite Yourcenar. A estória se passa na Letônia de 1919, a primeira grande guerra acabou mas nos estados bálticos persiste a luta entre a elite prussiana (democrata e nacionalista, buscando independência da Rússia) e os bolcheviques.

É interessante notar que Yourcenar publicou Le Coup de Grâce em 1939. O narrador/protagonista é claramente definido como um nobre abnegado que escolhe voltar à Letônia para lutar pela sua independência, o que ele considera ser uma guerra perdida. Embora o filme acabe antes, os estados bálticos acabam por conseguir sua independência — temporária, pois eles viriam a ser retomados pela Russia na segunda guerra mundial. Mas o episódio histórico é secundário e mal explicado, o que a estória realmente explora são os conflitos românticos e políticos, cheios de ambigüidades.

Die Blechtrommel é a excelente adaptação para o cinema da novela de Günther Grass, de 1959 (O Tambor, no Brasil). A princípio parece ser a alegoria de um gurizinho irritante e manipulativo que, aos três anos de idade na Danzig de 1927, decide parar de crescer. Como a cidade, o menino tem três identidades étnicas, polonesa, alemã e kashúbia. Eventualmente ele recusa as três, livrando-se também de seus relativos Laio, Políbio e Jocasta. Sua recusa em crescer vem a ser sua rejeição do mundo obtuso dos adultos à sua volta, e assim ele consegue flutuar na sua realidade paralela em meio ao caos das próximas décadas. Oskar é o herói não conformista.

Este comentário sobre a obra de Günther Grass, por Ashok Chopra, pode muito bem ser aplicado ao filme:

What migration taught Grass was the meaning (or disruption) of reality: that reality was an artifact, that it does not exist until it is made, and that like any other artifact it can be made well or otherwise. (…) Like all migrants, Grass is much more interested in images than places; he sees the world through ideas, through metaphors which makes some sense of a senseless world."

(…) [The Danzig trilogy – The Tin Drum, Cat and Mouse, Dog Years] also ask embarrassing questions on the complacency of the German middle classes (or the middle classes everywhere) and its willing submission to Authority for the sake of security and the little crumbs of life. (…) Though the main issues are political, the paradigms usually direct us beyond politics or to a dimension that is decidedly prepolitical. It teaches us that human behaviour had best be evaluated by standards that have nothing to do with political systems or ideologies. A fellow like Oscar's father Alfred Matzerth, may decide that it is expedient to wear a Nazi party pin and to attend Nazi rallies, but he is to be understood not as a victim of ideology but of bourgeois conformism that has only an incidental political component.

John Singer Sargent's Lady Agnew of Lochnaw, por John Singer Sargent (1893)The House of Mirth (2000), de Terence Davies, é a adaptação da novela homônima de Edith Wharton, de 1905. A estória é tragica mas bastante realista, uma excelente crítica dos costumes vigentes na sociedade americana no começo do século. Enquanto The Age of Innocence mostra comunicações sufocadas, The House of Mirth esmaga qualquer ilusão romântica sobre a vida das mulheres naquela época. Seja como for, continuo apaixonada pelos vestidos e penteados, fazer o que? Ao lado, também por John Singer Sargent, Lady Agnew of Lochnaw (1893).

O favorito entre todos os filmes foi o documentário Saudade do Futuro (2000), de César Paes e Marie-Clémence, em que imigrantes nordestinos traçam um retrato de sua vida na grande São Paulo. Os depoimentos já são interessantes pelo conteúdo, mas a linguagem que usam e a graça que fazem de si mesmos e do mundo são de aquecer o coração, fui eu que fiquei cheia de saudades. Tem uma cena em que uma senhora está sentada ao lado da filha numa cama, casualmente ela vai desenrolando suas desventuras amorosas, as duas riem o tempo todo. É a cara do Brasil.

Boa parte do documentário mostra repentistas repentindo (não pude resistir). A música é excelente, mas impagável é o vocabulário. Além do humor nas críticas e desafios improvisados, tem aquele uso da linguagem característico do nordeste brasileiro, tão colorido e cheio de poesia.

Uma das minhas grandes amigas por estas bandas é cearense, e com ela aprendi o termo "conversa de miolo de pote", para aqueles papos que não saem do hoje-está-tão-quente. Outras pérolas são emendar os bigodes (brigar), assentar o cabelo (morrer), mulher-de-piôlho (pessoa obstinada) e mamãe-vem-aí (fecho éclair).

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