My kind of town

março 22, 2006 at 8:58 pm (abstraindo, misturando, viajando)

Acabo de voltar da minha terceira visita à Chicago. Desde maio do ano passado eu estava convencida San Francisco ser minha cidade favorita nos EUA, mas fui reconquistada por Chicago. Desta vez nem estive em Oak Park ou Hyde Park, passei todo o tempo dentro do Central Loop, exceto por um passeio na North Michigan Avenue e breve perambulada por River North.

Fiquei hospedada entre o Rookery (Burnham and Root, 1888), o elegantérrimo Art Deco LaSalle (Graham, Anderson, Probst & White, 1934), Federal Center (Ludwig Mies van der Rohe, 1959-1974) e Bank of America (Graham, Anderson, Probst & White, 1924). Abaixo, fotos do Rookery. O lobby e pátio foram reformados por Frank Lloyd Wright em 1907.

The Rookery The Rookery The Rookery

Chase (First National Plaza)Chicago tem prédios maravilhosos, aos montes. Um dos meus preferidos é o Chase Tower (Perkins & Will, 1969), foto ao lado. As laterais côncavas dão um ar de leveza a este prédio de 60 andares, a perspectiva é bonita mesmo ao nível dos pedestres. A plaza em terraços é também muito interessante e convidativa.

Em River North, meu favorito é o John Hancock Center (Skidmore, Owings & Merrill, 1970). As braçadeiras na diagonal reduzem quase que pela metade a necessidade de aço na estrutura, e assim os 100 andares de uso comercial e residencial têm grande liberdade para arranjar o espaço interno.

Voltando ao Central Loop e ao século XIX, o simples e massivo Monadnock Building (Burnham & Root, 1891) é lindo por fora e por dentro (fotos abaixo). Todo em alvenaria, na base as paredes têm 1.80m de espessura para suportar seus 16 andares. Nesta época usava-se pátios internos para acomodar a necessidade de luz natural em grandes edifícios (como no Rookery), mas o terreno do Monadnock era muito estreito para permiti-lo. A solução encontrada foi transformar as escadas em poços de luz.

The Monadnock The Monadnock The Monadnock

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Vivere RestaurantMas talvez a melhor parte de Chicago seja a possibilidade de comer bem fora de casa (coisa que não é muito fácil neste país). O Central Loop nem é o ponto alto da cidade, mas eu aproveitei bem. Todos os dias, antes do café da manhã, eu me dirigia para a Kramer’s Health Food Shoppe (209 S. Wabash Avenue) onde tomava um suco centrifugado de cenoura, beterraba, espinafre, salsinha e gengibre. Nos arredores haviam várias padarias e cafés, eu podia *escolher* onde comer. Na terça jantei no Vivere, um dos três restaurantes da famiglia Capitanini no Italian Village. A decoração é uma espécie de rococó pós-moderno (projeto de Jordan Mozer), com espirais barrocas e outras maluquices (foto ao lado). A comida estava bem gostosa, e o serviço decente.

Na sexta fui ao Ristorante We, uma casa de carnes toscana dentro do Hotel W. A salada de rúcula, finnochio, laranja, queijo de cabra e avelãs tostadas estava muito boa, embora a quantidade de avelãs deixasse a desejar. Estava nos planos experimentar as batatinhas fingerling da casa, mas o pão de alho com molho de gorgonzola estava tão maravilhoso que não consegui pensar em comer mais nada.

Trattoria No. 10Mas o ponto alto foi quarta-feira: Trattoria No. 10, também um restaurante de cozinha toscana. O Trattoria é um restaurante mais discreto, muito elegante e confortável. Eu poderia ter passado a noite tomando vinho e comendo os crackers feitos na casa, mas escolhi uma salada de folhas verdes com nozes carameladas, queijo de cabra e vinagrete de passas e sherry; e ravioli de abóbora dos tipos butternut e acorn, com molho de manteiga, nozes, manjericão, e vegetais crus à julienne. Ainda estou suspirando. Pannacota de sobremesa.

O café da manhã de sábado (waffle com manteiga de açúcar mascavo, morangos frescos e chantilly) foi no Atwood Cafe, dentro do Burnham Hotel (originalmente Reliance Building, por Daniel Burnham, John Root and Charles Atwood, 1894), fotos abaixo. Este prédio, um dos mais bonitos da Chicago antiga, é um importante precursor dos arranha-céus. 14 pavimentos, estrutura de ferro e aço, fachada coberta com painéis de terracota e uma grande quantidade de vidro para a época. O restauro do Reliance levou tempo e foi bastante cuidadoso. Os painéis de terracota foram limpos, consertados e polidos. As escadas em ferro e as portas dos antigos escritórios, em mogno e vidro florentino, foram restauradas. Infelizmente a equipe responsável pela decoração do hotel careceu de alguns neurônios. No caminho do restaurante para os banheiros foi colocado um carpet escuro passando por alguns degraus, sem nenhuma demarcação da mudança de nível. Meu encontro com estes degraus foi bastante doloroso, depois do café da manhã fui direto para o hospital cuidar de uma torção no pé.

The Reliance The Reliance The Reliance

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Além de comida e arquitetura de primeira classe, a cidade também oferece o Art Institute of Chicago. O acervo é maravilhoso, famoso pela coleção de impressionistas e de arte americana (por exemplo, Nighthawks de Edward Hopper e American Gothic de Grant Wood). Eu gosto particularmente da coleção de mobília do século XX, Thorne Miniature Rooms e esculturas caricaturescas de Honoré Daumier.Portrait du citoyen Belley (Girodet, 1797) Tive a sorte de pegar a exposição Girodet: Romantic Rebel. Anne-Louis Girodet de Roucy-Trioson (1767-1824) foi um pintor francês, discípulo de Jacques-Louis David. Seu trabalho marcou a transição da austeridade neo-clássica para o lirismo fantasioso do romanticismo.

Ao lado está o Portrait du citoyen Belley (1797). Belley era do Senegal, um ex-escravo no Caribe que trabalhou para abolir a escravidão nas colônias francesas. Belley veste o uniforme de um deputado da convenção, e seu rosto está no meio-perfil que se usava para retratos de nobres e reis – um ângulo que traz dignidade ao retrato, mas também realça as formas de seu crânio. Belley se apóia no pedestal do busto do abolicionista Guillaume-Thomas Raynal, a cor do mármore e a testa reta evidenciando o que na época se acreditava como marca de inteligência superior. Neste retrato Girodet celebrava o estabelecimento dos direitos humanos pela então recém formada república francesa, ao mesmo tempo que evocava as novas estruturas sociais baseadas em racismo.

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Chicago é viva, cheia de jazz, com gente andando nas ruas, sorrisos e olhares, bons-dias entre aqueles que esperam o sinaleiro abrir. A cidade tem muitos problemas, mas está sempre encarando seus demônios e correndo atrás de soluções. De cultura avançada e progressista, Chicago é o berço americano da arquitetura, dos serviços sociais e direitos trabalhistas, dos estudos sociológicos sobre racismo, segregação, pobreza, imigrantes e família.

1 Comentário

  1. strambinha strambloga » Pearl River Tower said,

    […] Skidmore, Owings & Merrill (SOM) é a firma de arquitetura baseada em Chicago também responsável pelo John Hancock Center (1970), um edifício bastante inteligente em termos estruturais. As braçadeiras na diagonal reduzem quase que pela metade a necessidade de aço na estrutura, e assim os 100 andares de uso comercial e residencial têm grande liberdade para arranjar o espaço interno. (foto de MerlinsMan) […]

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